sexta-feira, 21 de junho de 2013
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Globalização e crime - Apenas um ensaio!
Para
definir o termo globalização, sirvo-me, inicialmente, dos ensinamentos de
Bauman [1]:
A
“globalização” está na ordem do dia; uma palavra da moda que se transforma
rapidamente em um lema, uma encantação mágica, uma senha capaz de abrir as
portas de todos os mistérios presentes e futuros. Para alguns, “globalização” é o que devemos fazer se quisermos ser
felizes; para outros, é a causa da nossa infelicidade. Para todos, porém,
“globalização” é o destino irremediável
do mundo, um processo irreversível; é também um processo que nos afeta a
todos na mesma medida e da mesma maneira. Estamos todos sendo “globalizados” —
e isso significa basicamente o mesmo para todos. (grifo nosso)
Não
há dúvida de que a globalização influencia o modo de vida das pessoas,
incluindo também o adolescente. Zaluar, em reportagem a Folha de São Paulo [2],
afirma que a globalização apresenta efeitos “paradoxais”, pois na mesma medida
que influencia as políticas públicas dilui a importância do Estado-nação:
A
GLOBALIZAÇÃO tem tido efeitos paradoxais. De um lado, a concentração
econômico-financeira dilui a autonomia das empresas nacionais e a importância
do Estado-nação. De outro, uma rede de informações célere e eficiente permite
novas e rápidas formas de comunicação entre pessoas em diferentes cidades,
países, continentes ou de diversas idades, gêneros, preferências, religiões e
estilos de vida. (destaque do autor)
Neste
sentido o paradoxo relatado por Zaluar não pode colidir com a ideia de que o
Estado deve ser um empreendedor social, um provedor e garantidor de direitos. O
que se modifica, entretanto, é a forma de como isto pode ocorrer, haja vista
que na sociedade globalizada e permeado por informações de todo “o mundo” as
alternativas são multiplicadas e a difusão da informação ganha em velocidade e
espaço.
Uma
das características deste processo, conforme indicado por Bauman [3],
consiste na possibilidade de que as pessoas “percam o controle de suas vidas”,
em face da quantidade de estímulos que podem sofrer diariamente, chegando a
instituir uma “nova desordem mundial”.
Esta
nova e desconfortável percepção das “coisas fugindo ao controle” é que foi articulada
(com pouco benefício para a clareza intelectual) num conceito atualmente na
moda: o de globalização. O significado mais profundo transmitido pela ideia da
globalização é o do caráter indeterminado, indisciplinado e de autopropulsão
dos assuntos mundiais; a ausência de um centro, de um painel de controle, de
uma comissão diretora, de um gabinete administrativo. A globalização é a “nova
desordem mundial” de Jowitt com um outro nome.
Esta
desordem mundial é indicada, de forma transversal, por Fridman [4] no
momento em que “todos experimentam uma profunda insegurança em virtude do veloz
desmantelamento e da sucessiva reconstrução das instituições sociais”, que é
fruto deste processo de globalização.
Bauman [5]
reforça a ideia de Fridman ao afirmar que no fenômeno da globalização “há mais
coisas do que pode o olho apreender; revelando as raízes e consequências
sociais do processo globalizador”. É a incerteza total, a insegurança global.
Estamos,
assim, inseguros, desmantelados, reconstruindo instituições, globalizados,
apreendendo e com um sentimento de incerteza. Como “controlar” esta situação?
Como viver neste caos? A saída seria uma sociedade disciplinar? Deleuze [6],
comentando Foucault, explica que nos “encontramos numa crise generalizada de
todos os meios de confinamento, prisão, hospital, fábrica, escola, família”,
num ambiente globalizado e sem fronteiras. Se não possuímos fronteiras, onde
estamos? Ao lado desta incerteza, Bauman [7]
aponta o surgimento de um novo fenômeno: a localização.
O
que para alguns parece globalização, para
outros significa localização; o que para alguns é sinalização de liberdade,
para muitos outros é um destino indesejado e cruel. A mobilidade galga ao mais alto nível dentre os valores cobiçados — e a
liberdade de movimentos, uma mercadoria sempre escassa e distribuída de forma
desigual, logo se torna o principal fator estratificador de nossos tardios
tempos modernos ou pósmodernos. (grifo nosso)
Localização
é liberdade? Dúvida semântica! Como estou globalizado e ao mesmo tempo
localizado? Se estou localizado, como posso ter mobilidade? Afinal, o que é liberdade?
Estes sentimentos geram a liberdade que, segundo Fridman [8]
“não esta sujeita ao controle de nenhuma nação, grupo de nações, empresas ou
agências internacionais” e que “influi diretamente sobre as instituições
nacionais e abarca o cotidiano de nossas vidas”. Para ele, “família, trabalho,
tradição e natureza não permanecem iguais ao que foram no passado recente”.
Tudo supostamente se reforma! [9]
Neste
paradoxo de estar em um lugar, mas conviver com outras culturas e costumes, a
pessoa humana se sente violentada. Observe o ensinamento de Bauman [10]:
Ser local num mundo globalizado é
sinal de privação e degradação social. Os desconfortos da existência localizada
compõem-se do fato de que, com os espaços públicos removidos para além do
alcance da vida localizada, as localidades estão perdendo a capacidade de gerar
e negociar sentidos e se tornam cada vez mais dependentes de ações que dão e
interpretam sentidos, ações que elas não controlam — chega dos sonhos e
consolos comunitaristas dos intelectuais globalizados. (grifo nosso)
Estamos
todos violentados, inclusive o adolescente em conflito com a lei. Outro ponto
importante e que afeta a vida do adolescente e, consequentemente, o trabalho
com ele é o processo de segregação. Bauman [11]
explica:
Uma
parte integrante dos processos de globalização é a progressiva segregação espacial, a progressiva
separação e exclusão. As tendências neotribais e fundamentalistas, que
refletem e formulam a experiência das pessoas na ponta receptora da
globalização, são fruto tão legítimo da globalização quanto a “hibridização”
amplamente aclamada da alta cultura — a alta cultura globalizada. Uma causa
específica de preocupação é a progressiva ruptura de comunicação entre as
elites extraterritoriais cada vez mais globais e o restante da população, cada
vez mais “localizada”. (sic) (grifo nosso)
São
os chamados muros invisíveis apontados por Tereza Pires do Rio Caldeira [12].
Cria-se, assim, uma cruel “distinção entre ricos e pobres, nômades e
sedentários, ‘normais’ e anormais ou à margem da lei que se polarizam e se
entrelaçam mutuamente” [13].
Bauman [14]
explica:
As
elites escolheram o isolamento e pagam por ele prodigamente e de boa vontade. O resto da população se vê afastado e
forçado a pagar o pesado preço cultural, psicológico e político do seu novo
isolamento. Aqueles incapazes de fazer de sua vida separada uma questão de
opção e de pagar os custos de sua segurança estão na ponta receptora do
equivalente contemporâneo dos guetos do início dos tempos modernos; são pura e
simplesmente postos para “fora da cerca” sem que se pergunte a sua opinião, têm
o acesso barrado aos “comuns” de ontem, são presos, desviados e levam um choque
curto e grosso quando perambulam às tontas fora dos seus limites, sem notar os
sinais indicadores de “propriedade privada” ou sem perceber o significado de
indicações não verbalizadas mas nem por isso menos decididas de “não
ultrapasse”. (grifo nosso)
Estes muros invisíveis apenas discriminam, pois “os
pobres não habitam uma cultura separada dos ricos; eles têm que viver no mesmo
mundo ideado em benefício dos que têm dinheiro. E sua pobreza é agravada pelo
crescimento econômico” [15]
(verifica-se que o adolescente pobre e da periferia busca os mesmos sonhos e
bens patrimoniais da classe mais abastada). Surge, assim, um comportamento considerado
ideal ou que é o esperado pela maioria dos cidadãos. Aqueles que por qualquer
motivo deixam de atender este “modelo” são criminalizados. Bauman [16]
já advertia sobre isto:
A
tendência atual de criminalizar casos que não se adequam à norma idealizada e o
papel desempenhado pela criminalização para compensar os desconfortes da “vida
em movimento” tornando ainda mais odiosa e repulsiva a imagem da realidade da
vida alternativa, a vida da imobilidade. A complexa questão da insegurança
existencial colocada pelo processo de globalização tende a se reduzir à questão
aparentemente direta da “lei e da ordem”. Nesse processo, as preocupações com a
“segurança”, o mais das vezes reduzidas à preocupação única com a segurança do
corpo e dos bens pessoais, são “sobrecarregadas” de ansiedades geradas por
outras dimensões cruciais da existência atual — a insegurança e a incerteza.
É neste contexto que se estabelece a vida do
adolescente em conflito com a lei, onde as oportunidades para os mais ricos de
ganhar dinheiro se expandiram com a globalização [17].
A globalização me explora, me segrega e me movimenta. Como lidar com estas
circunstâncias se, ao mesmo tempo, ela me fascina? Pode o adolescente entender
claramente este processo? Eu compreendo este processo?
Outro aspecto a ser destacado é a indiferença ética
rotineira que resulta em descompromisso [18].
O “espetáculo de desastres” transmitido para todos em tempo real pela mídia
globalizada, composto de imagens de guerras, assassinatos, drogas, pilhagens,
fome etc., contribui o descompromisso do jovem? Em mais um paradoxo,
aparentemente não! Correia e Trufem [19]
destacam que esta geração de jovens é muito mais participativa:
Nesta
primeira década do século XXI observa-se que os adolescentes dispõem de maior acesso ao conhecimento e de mais
neutralidade moral. Não há, por exemplo, uma clara definição do que é certo
ou errado. O que é certo para um, pode não o ser para outro. É o espaço do
relativo. Depende do ângulo em que se observa... É neste século, também, que se
observa com maior maturidade o protagonismo juvenil. Protagonismo é a atuação
de adolescentes e jovens, através de uma participação
construtiva. Envolvendo-se com as questões da própria
adolescência/juventude, assim como, com as questões sociais do mundo, da
comunidade... Pensando global (O
planeta) e atuando localmente (em casa, na escola, na comunidade...) o
adolescente pode contribuir para assegurar os seus direitos, para a resolução
de problemas da sua comunidade, da sua escola... (RABÊLLO, Maria Eleonora D.
Lemos. O que é protagonismo juvenil. Disponível em
[http://www.cedeca.org.br/PDF/protagonismo_juvenil_eleonora_rabello.pdf].
Acesso em 23 de abril de 2009)
Em síntese, diante deste quadro delineado pelos
pensadores citados, o impacto no trabalho cotidiano junto aos adolescentes em
conflito com a lei é permeado por desafios. É preciso entender que o
adolescente “pensa global, mas age localmente” e que sua “luta” pode significar
a busca por seus direitos e para resolução de seus problemas. Entender a
própria globalização e sua influência nas atitudes dos jovens, em seus
sentimentos, na sua prática não me parece tão fácil. As dimensões temporal e
espacial se modificam e influenciam a juventude, mas não são de “pronto”
aceitas pelas gerações que a antecedem. É preciso lembrar que [20]:
A
atual geração adolescente é a primeira que cresceu convivendo com o computador
dentro de casa. É uma geração que está conectada a várias mídias e ao mesmo
tempo. Para eles há muita informação e inúmeras potencialidades 24 horas por
dia, sete dias por semana. E não é só isso. As possibilidades se multiplicam
com a simultaneidade.
É um desafio. Um exercício de compreensão na busca
de entender a questão do adolescente em conflito com a lei. Tal desafio, sob
meu ponto de vista, impacta fortemente o cotidiano do profissional que atua com
o adolescente em conflito com a lei.
[1] BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Marcus Penchel (Trad.). Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1999, p. 5.
[2] ZALUAR, Alba. O espetáculo deve continuar. Folha de São Paulo. Disponível em
<>.
Acesso em: 17 jun. 2013.
[3] BAUMAN, ob cit., p.
58.
[4] FRIDMAN, Luiz Carlos. Laços frágeis, a oferta da
contemporaneidade. Texto de estudo em aula, p. 121.
[6] DELEUZE, Gilles. Pós-scriptum sobre as sociedades de controle. Material de aula.
Disponível em:
<>.
[7] BAUMAN, ob cit.,
p. 6.
[8] FRIDMAN, ob
cit., 123.
[9] DELEUZE, ob cit., p.
1.
[10] BAUMAN, ob cit., p.
6.
[11] Ibidem.
[12] CALDEIRA, Tereza Pires do Rio. Cidade
de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. 34 ed. São Paulo:
Edusp, 2000.
[13] BAUMAN, ob cit., p.
7.
[14] Idem, p. 24.
[15] SEABROOK apud BAUMAN,
ob cit., p. 92.
[16] BAUMAN, ob cit.,
p. 8.
[17] Idem, p. 69.
[18] Idem, p. 72-73.
[19] CORREIA, Fabiana; TRUFEM, Sandra Farto
Botelho. O adolescente no mundo
globalizado: experiências e expectativas de um grupo paulistano. Artigo.
Disponível em: <>.
Acesso em: 18 jun. 2013.
[20] Idem, p. 18.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
O movimento - Rogério Baptistini
Ignoro as causas reais do movimento social que se espalha por São Paulo e por outras cidades. Não sou adivinho e não participo de movimentos organizados ou partidos políticos. De qualquer forma, num primeiro olhar, fica claro a força das redes sociais virtuais e a incapacidade dos partidos e demais instituições tradicionais em canalizarem as demandas que surgem na sociedade.
Também é evidente a fragilidade da cultura política liberal e democrática. Associada, talvez, a um resquício burguês e conservador, a tolerância e a disposição para ouvir o outro - aquele que mobiliza argumentos diferentes - é pequena, sobretudo pelos que se apresentam como representantes do movimento horizontal e sem líderes.
A ausência de lideranças também dificulta a prática da política e a busca do consenso. Sem ter com quem negociar, sem pautas mínimas, fica difícil o convívio e a busca pelo entendimento. Neste cenário, o confronto que só termina com a eliminação do outro é sempre uma possibilidade.
Não parece, contudo, que a maioria dos que ocupam as ruas queira o confronto puro e simples. Os manifestantes pela redução da tarifa do transporte, que viram seu movimento ser engrossado por descontentes vários, têm dado demonstrações de buscarem a saída política e não o vandalismo.
O viés romântico e anticapitalista do discurso de alguns grupos, sobretudo nas redes sociais virtuais, é outro elemento que nubla o horizonte, pois, não raro, alimenta a cultura totalitária e desqualifica a política nos termos do Estado de Direito, encarados, este e aquela, como ilegítimos.
Em um cenário que, a primeira vista, parece desalentador, sobretudo pelo caos em que a vida se transforma, é necessário imaginação, capacidade criativa e, também, firmeza na defesa de certos valores essenciais. A verdade não reside apenas nas leis e instituições, nem tampouco nas ruas e nas demandas. Encontrar o termo adequado é o desafio para os que creem na possibilidade de uma sociedade livre, justa e democrática.
Um abraço,
Rogério Baptistini.
domingo, 9 de junho de 2013
Reportagem de capa explora o tema da violência urbana, fala em "população aterrorizada" e aponta dificuldades para a reeleição de Geraldo Alckmin
8 DE JUNHO DE 2013 ÀS 07:21
247 - A violência será o calcanhar de Aquiles do governador Geraldo Alckmin, em sua possível tentativa de reeleição, em 2014. Este é o tema da reportagem de capa da revista Istoé desta semana, que fala de uma população aterrorizada na maior metrópole do País. Leia abaixo:
Uma metrópole em pânico
Como a falta de uma política de segurança pública e a omissão das autoridades colocaram a maior cidade do Brasil de joelhos diante de criminosos cada vez mais cruéis. Aterrorizada, a população assiste indefesa a execuções em qualquer lugar
São Paulo é a maior metrópole do Brasil, motor da economia nacional, responsável por 12% da riqueza brasileira. O governo paulista dispõe do segundo maior orçamento do País e emprega um contingente policial numericamente superior ao de muitos países latino americanos. São cerca de 120 mil policiais civis e militares. Bem usada, seria uma garantia de paz à população da cidade. Mas, apesar de tantos dados superlativos, São Paulo está de joelhos diante da criminalidade. A população da região metropolitana vive com medo, insegura e acuada diante de execuções sumárias realizadas à luz do dia e da barbárie de assassinatos cada vez mais cruéis que se repetem numa rotina apavorante. Na sexta maior cidade do mundo, o crime foi banalizado. A vida foi banalizada. Amparados na ausência de uma política de segurança pública, na omissão das autoridades constituídas e na inépcia de policiais – muitos ligados às bandas podres da instituição e outros desmotivados e até cerceados para o exercício de suas atividades –, os bandidos não escolhem hora e nem lugar para agir. Nem mesmo as câmeras espalhadas pela metrópole impedem uma matança que não escolhe alvos. Ao contrário, o que elas registram são imagens muito fortes de mortes cruéis, com impacto devastador e revoltante sobre quem as assiste. Mesmo aqueles que entregam seus pertences sem esboçar qualquer reação são friamente alvejados. A certeza da impunidade produto da letargia da polícia e da Justiça dão ânimo à crescente ousadia dos marginais. E o poder público assiste, inerte, à escalada de violência que faz de reféns 12 milhões de habitantes.
A escalada de latrocínios – roubos seguidos de mortes – que aterroriza os paulistanos além de revelar a falência de um modelo de segurança pública que há duas décadas se instalou no Estado, também desafia os acadêmicos. Houve tempos em que se entendia o aumento da violência – e consequentemente do pânico – como mais um dos nefastos efeitos diretos da pobreza e da desigualdade econômica. Roubava-se e até matava-se numa ação de desespero, para sobreviver, numa lógica perversa, mas com algum sentido. Hoje, numa situação de pleno emprego e de indicadores sociais cada vez mais positivos, os assassinatos continuam. Mata-se por matar. Mata-se por impulso. Mata-se por nada. E a cada morte a sociedade se encolhe, se esconde e, lentamente, também morre. “Problemas sociais como desemprego, exclusão e pobreza podem até influir na violência urbana”, afirma o sociólogo Benedito Domingos Mariano, ex-ouvidor da Secretaria de Segurança de São Paulo. “Mas hoje essas causas não podem ser usadas como justificativa para escamotear as deficiências estruturais das polícias na atribuição de garantir a segurança pública”.
Na semana passada, as imagens do auxiliar de manutenção Eduardo Paiva, 39 anos, sendo covardemente assassinado rodaram o Brasil. Seguido por bandidos após sacar R$ 3 mil do banco, ele levou um tiro na cabeça em frente a duas escolas, na segunda-feira 3 pela manhã, em Higienópolis, um dos bairros mais nobres de São Paulo. Eduardo foi executado quando estava de joelhos diante de seu assassino. As cenas são o retrato da sensação de insegurança que grande parte dos paulistanos vive todos os dias (leia relatos de outros crimes que chocaram a cidade nos quadros ao longo da reportagem). Segundo uma pesquisa do Instituto Datafolha, a maior preocupação de 42% dos moradores da capital é ter a casa invadida ou sofrer um assalto na rua. E, ao contrário do que possa parecer, esse sentimento é muito real. “O medo nunca é artificial, ele é um sentimento que depende de muito mais do que apenas o movimento real da criminalidade”, afirma Renato Sérgio de Lima, secretário geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Reduzi-lo depende de como a população compreende a ação do Estado e das polícias. Por isso, uma política de segurança pública eficiente tem que ser pensada não só na sua dimensão de prevenção e repressão. Ela tem que levar em consideração o que as pessoas sentem.” Nesse sentido, a metrópole paulistana não consegue visualizar nenhuma luz no fim do túnel.
Viver em São Paulo hoje é uma experiência aterrorizante, mesmo nas mais simples ações cotidianas. Caminhar por uma calçada em uma rua qualquer, não importa se em bairro nobre ou na periferia. Comer uma pizza no seu restaurante favorito. Conversar com um amigo na porta de casa. Ir ao banco ou a uma casa lotérica. Sair para ou voltar da escola. Fazer um passeio de carro. O medo, para o paulistano, é sempre um incômodo companheiro. E, influenciado por ele, desconfia-se de qualquer um. Enxerga-se em todos os demais atitudes suspeitas. Apressa-se o passo, cancela-se programas, suspende-se a vida. Vive-se em liberdade teórica. Na prática, enquanto a bandidagem circula tranqüila, os cidadãos sentem-se aprisionados. Mas o que fez com que São Paulo chegasse a esse estado de barbárie? Segundo especialistas, nos últimos 20 anos o Estado não formulou uma política de segurança de médio e longo prazo. Apenas trabalhou com a questão da violência policial, alternando momentos de uma polícia matadora com momentos de uma polícia mais contida. Com essa fórmula, acabou não conseguindo punir efetivamente os maus policiais e os bons se sentem amarrados, na medida em que são obrigados a até contar e explicar cada tiro disparado. O problema é que para enfrentar o crime não precisamos necessariamente de uma polícia arbitrária. Precisamos, sim, de uma polícia eficiente.
O latrocínio talvez seja o crime que mais assusta a população porque parece imprevisível. Ele começa com um assalto e termina em assassinato. É um dos grandes desafios para a polícia. A forma para evitá-lo é a investigação inteligente. Historicamente, o número de latrocínios tende a cair na medida em que os criminosos são presos. Ou seja, um latrocínio esclarecido pela polícia desencoraja a ação de outros criminosos. Assim, em São Paulo, este ano, o aumento de 64% nas estatísticas desse tipo de crime é, além de intimidador para as pessoas, revelador da inação oficial. Na Secretaria de Segurança pouco se sabe sobre o perfil de quem o comete e as circunstâncias em que ele acontece. Para Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública da Fundação Getúlio Vargas, matar não é a finalidade do ladrão. “Quem mata é o criminoso pé-de-chinelo, aquele está bolado e não raciocina bem. Ele corre o risco de pegar muitos anos de cadeia por nada”, explica. Para ele, a diminuição desse tipo de crime passa pelo desarmamento, que reduz o estoque de armas, e um sistema de investigação amplo e eficiente. “Só conseguiremos diminuir o número de crimes violentos quando provarmos que não dá certo, que a possibilidade de ele ser preso é maior se ele matar. O problema é que a investigação, por regra, não é feita”, diz. A especialista em criminologia Ilana Casoy acredita que esse tipo de comportamento dos marginais pode ser explicado, em parte, pelo fato de que, no Brasil, o risco de roubar compensa. “Apenas 2,5% dos roubos são resolvidos. Nenhum outro negócio tem tal índice de sucesso. No caso de mortes, a chances de encontrar o autor são de 6%. Na Inglaterra são de 90%.” Para ela, a atitude violenta só pode ser coibida com a certeza da punição, não o tempo de pena. E para isso, evidentemente, é preciso investir em infraestrutura de investigação e inteligência, aspecto negligenciado pela Secretaria de Segurança Pública. “Precisamos elevar a taxa de esclarecimento porque quanto mais crimes a gente resolver, quanto mais assaltantes e infratores forem presos, mais nós estaremos prevenindo outros crimes, principalmente contra o patrimônio”, admite o secretário Fernando Grella.
A teoria não chega à prática na pasta comandada por Grella. A ousadia dos bandidos caminha na direção oposta à competência da polícia. Numa demonstração de que não temem o efetivo policial, eles chegam a cometer assaltos nos mesmos lugares por dias consecutivos sem serem incomodados. Os ladrões que atuam no Morumbi, na zona sul, praticamente na porta do Palácio dos Bandeirantes, onde despacha há três anos o governador Geraldo Alckmin, promovem arrastões freqüentes na região. Na semana passada, Alckmin – chefe de Grella e, portanto, quem deveria ser responsável pela implantação de uma política de segurança -- recebeu 400 convidados para um jantar beneficente na residência oficial. Era para ser uma noite descontraída, para incentivar ações solidárias, mas a escalada da violência dominou as conversas de empresários e socialites. Outras regiões da cidade, como o Paraíso e Perdizes, bairros de classe média, também são cenários freqüentes dos marginais. Qualquer paulistano sabe disso. A polícia, profícua em elaborar estatísticas, também. Ninguém, no entanto, explica porque a força pública não consegue mudar esse quadro. Há mais duas décadas, é sabido que nas cercanias da PUC, o número de carros roubados é enorme. Continua assim. E, isso traz aos marginais a certeza da impunidade. Em 14 de maio, em frente à universidade, o estudante Bruno Pedroso Ribeiro, de 23 anos, foi alvejado no pescoço depois de dar o celular ao seu algoz. Ficou quase um mês internado no Hospital das Clínicas. Três dias depois, na Vila Mariana, na zona sul, um adolescente foi baleado no abdômen dentro do carro onde estava com os pais e o irmão após a família ter entregado os pertences aos marginais.
Em bairros centrais da capital, antes tidos como ilhas de paz no caos da metrópole, essa falta de políticas abriu brechas para a entrada do crime, historicamente maior na periferia. Na semana passada, no Itaim Bibi, na zona sul, o motorista Márcio Cazuza, 42 anos, levou um tiro no tórax às 7h da manhã durante uma tentativa de assalto. As notícias de tiroteio tornaram-se comuns em bairros sofisticados da capital paulista. Até a rua Oscar Freire, famosa no Brasil por concentrar as principais lojas de grife, recentemente foi palco de uma troca de tiros entre a polícia e bandidos que fizeram um arrastão num salão de cabeleireiro. Mais aterrorizante ainda é não ter o que dar ao bandido. Num lance de extrema crueldade, criminosos tocaram fogo na dentista Cinthya de Souza, no final de abril, porque só conseguiram sacar R$ 30 de sua conta bancária. No dia 1º de junho, às 14h, um marginal disparou contra a cabeça da empregada doméstica Maria do Carmo Cunha, de 62 anos, que pagava uma conta atrasada em uma lotérica, porque as funcionárias do local não lhe entregaram dinheiro. Segundo Luciana Guimarães, diretora do Instituto Sou da Paz, “se não conseguirmos encarar a agenda do roubo, não conseguiremos reduzir os índices porque o latrocínio é um roubo mal sucedido”, explica. Só em 2012 foram registrados mais de 125 mil roubos na região metropolitana de São Paulo. Mas, apesar de toda a crueldade, não existe crime, organizado ou não, que resiste a uma política de segurança inteligente.
O exemplo do Rio de Janeiro mostra como a ação policial pode, sim, fazer a diferença. Lá, o crime organizado exercia um poder paralelo com domínio territorial de áreas da cidade. Uma política de segurança bem pensada, planejada e executada mudou um quadro que por décadas pareceu irreversível. O Estado retomou os territórios com polícia, escola e centros de saúde. A polícia foi valorizada e recebeu diretrizes firmes de como agir, respaldadas pela secretaria de Segurança. Os maus policiais foram punidos. A população se sentiu segura, saiu às ruas e os criminosos perderam poder de fogo. Em São Paulo, a indefinição e a falta de apoio dos superiores enfraqueceram a polícia. Cobrado por medidas mais efetivas, o governador paulista lançou há três semanas seu terceiro pacote de segurança em três anos. Alckmin anunciou a intenção de dar bônus a policiais que cumprirem metas de redução de criminalidade em suas regiões, entre outras medidas, como a ampliação do efetivo, o que depende de concurso público. Segundo George Melão, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, no entanto, o governo terá de sentar à mesa e negociar se quiser avançar. “Calculamos que, para atender a demanda de investigação dos dias de hoje, precisamos entre 12 mil e 15 mil novos policiais civis”, diz. Ele também aponta a necessidade de melhorar a remuneração do policial no Estado, que é de R$ 2,5 mil em média, assim como a dos delegados, de R$ 7,2 mil. “O salário dos delegados em São Paulo é o pior entre todos os Estados da federação e, mesmo assim, o governo não se mostra disposto a negociar”, diz.
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