domingo, 7 de agosto de 2011

História Militar

Um pouco de História Militar



Por que a 148ª Divisão Alemã se entregou somente aos brasileiros na Itália?


Cel.Hiram Reis e Silva

Foi em abril de 1945. Os alemães tinham retraído da Linha Gótica depois da nossa vitória em Montese, e provavelmente pretendiam nos esperar no vale do rio Pó, mais ao Norte. Nosso Esquadrão de Reconhecimento, comandado pelo Pitaluga, os avistou na Vila de Collechio, um pouco antes do rio. A pedido do General fui ver pessoalmente e lá, por ser o mais antigo, coordenei a noite um pequeno ataque com o esquadrão e um pelotão de infantaria, sem intenção maior do que avaliar, pela reação, a força do inimigo. Sem defender efetivamente o local, os alemães passaram para o outro lado do rio e explodiram a ponte. Então observamos que se tratava de uma tropa muito maior do que poderíamos ter imaginado. Eram milhares deles e nós tínhamos atacado com uma dezena de tanques e pouco mais de cinquenta soldados. 

Informamos ao comando superior que o inimigo teria lá pelo menos um regimento. O comando, numa decisão ousada, pegou todos os caminhões da Artilharia, encheu-os de soldados e os mandou em reforço à pequena tropa que fazia frente a tantos milhares. Considerei cumprida a minha parte e fui jantar com o Coronel Brayner, que comandava a tropa que chegara prosseguiu Dionísio. Durante a frugal refeição de campanha, apresentaram-se três oficiais alemães com uma bandeira branca, dizendo que vieram tratar da rendição. Fiquei de interprete, mas estava confuso; no início nem sabia bem se eles queriam se entregar ou se estavam pensando que nós nos entregaríamos, face ao vulto das tropas deles, que por sinal mantinham um violento fogo para mostrar seu poderio.

Esclarecida a situação, pediram três condições: que conservassem suas medalhas; que os italianos das tropas deles fossem tratados como prisioneiros de guerra (normalmente os italianos que acompanhavam os alemães eram fuzilados pelos comunistas italianos das tropas aliadas) e que não fossem entregues à guarda dos negros norte-americanos.

Esta última exigência merece uma explicação: a primeira vista parece racismo. Que os alemães são racistas é óbvio, mas porque então eles se entregaram aos nossos soldados, muitos deles negros? Bem, os negros americanos naquela época constituíam uma tropa só de soldados negros, mas comandada por oficiais brancos. Discriminados em sua pátria, descontavam sua raiva dos brancos nos prisioneiros alemães, aos quais submetiam a torturas e vinganças brutais. É claro que contra eles os alemães lutariam até a morte. Não era só uma questão de racismo.

Eu perguntei ao interprete do lado alemão (nos entendíamos em uma mistura de inglês, italiano e alemão), por que queriam se render, com tropa muito superior aos nossos efetivos e ocupando uma boa posição do outro lado do rio. Ele me respondeu que a guerra estava perdida, que tinham quatrocentos feridos sem atendimento, que estavam gastando os últimos cartuchos para sustentar o fogo naquele momento e que estavam morrendo de fome. Que queriam aproveitar a oportunidade de se render aos brasileiros porque sabiam que teriam bom tratamento.

Combinada a rendição, cessou o fogo dos dois lados. Na manhã seguinte vieram as formações marchando garbosamente, cantando a canção velhos camaradas, também conhecida no nosso Exército.  
 
A cerimônia era tocante prosseguiu Dionísio. Era até mais cordial do que o final de uma partida de futebol. Podíamos ser inimigos, mas nos respeitávamos e parecia até haver alguma afeição. Eles vinham marchando e cada companhia colocava suas armas numa pilha, continuando em forma, e seu comandante apresentava a tropa ao oficial brasileiro que lhe destinava um local de estacionamento. Só então os comandantes alemães se desarmavam. A primeira Unidade combatente a chegar foi o 36 Regimento de Infantaria da 9° Divisão Panzer Grenadier. Seguiram-se mais de 14 mil homens, na maioria alemães, da 148° Divisão de Infantaria e da Divisão Bessaglieri Itália que os acompanhava.

Entretanto houve um trágico incidente: Um nosso soldado, num impulso de momento, não se conteve e arrancou a Cruz de Ferro do peito de um sargento alemão. O sargento, sem olhar para o soldado, pediu licença a seu comandante para sair de forma, pegou uma metralhadora em uma pilha de armas a seu lado e atirou no peito do brasileiro, largou a arma na pilha e entrou novamente em forma antes que todos se refizessem da surpresa. Por um momento ninguém sabia o que fazer. Já vários dos nossos empunhavam suas armas quando o oficial alemão sacou da sua e atirou na cabeça do seu sargento, que esperou o tiro em forma, olhando firme para frente. Um frio percorreu a espinha de todos, mas foi a melhor solução - Concluiu Dionísio.

Ao ouvir esta história, eu já tinha mais de dez anos de serviço, mas não pude deixar de me emocionar. Não foram as tragédias nem as atitudes altivas o que mais me impressionaram. O que mais me marcou foi o bom coração de nossa gente, a magnanimidade e a bondade de sentimentos, coisas capazes de serem reconhecidas até pelo inimigo. Capazes não só de poupar vidas como também de facilitar a vitória. É claro que isto só foi possível porque os
alemães estavam em situação crítica; noutro caso, ninguém se entregará só porque o inimigo é bonzinho, mas que a crueldade pode fazer o inimigo resistir até a morte, isto também é real. Na História Pátria podemos ver como Caxias, agindo com bondade, só pacificou, e como Moreira César, com sua crueldade, só incentivou a resistência até a morte em Canudos.

O General Dionísio e o interprete alemão Major Kludge, se tornaram amigos e se corresponderam até a morte do primeiro, no início dos anos 90. O General Mark Clark, comandante do 5° Exército norte-americano, ao qual a FEB estava incorporada, disse que foi um magnífico final de uma ação magnífica. Dionísio disse apenas que a história real é ainda mais bonita do que se fosse somente um grande feito militar." 
 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Fantástico

O Monumento à incompetência
 
Em 1999 o corpo do alpinista inglês George Mallory foi encontrado a cerca de 8.200 metros de altitude no monte Everest. Mallory desapareceu em junho de 1924 quando estava próximo ao cume. Uma afirmação de um dos alpinistas que encontrou o corpo me chamou a atenção:
 
“Fiquei impressionado com as roupas que ele usava. Hoje em dia, no inverno, qualquer pessoa caminhando pelas ruas de Seattle está mais protegida do que Mallory no Everest em 1924.”
Lembrei-me dessa história durante uma visita que fiz a uma empresa na qual fui recebido pelo principal executivo, que fez questão de se identificar como CEO – Chief Executive Officer. Bonito né? Depois fui apresentado para o CMO, o CFO e o COO, executivos de marketing, finanças e de operações, respectivamente. Todos jovens MBAs formados no exterior.
 
Ao percorrer a empresa passamos por salas vazias, mesas vazias e grandes áreas vazias. E os jovens CEO, CFO, CMO e COO diziam com orgulho: “Isto aqui já esteve apinhado de gente. Fizemos uma reestruturação ao longo dos últimos dois anos e reduzimos em 45% o numero de pessoas, enquanto nossa produtividade cresceu 22%! Fazemos questão de deixar esses lugares à vista de todos. São nosso Monumento à Incompetência.”
 
Em minha palestra O Meu Everest afirmo que um dos ensinamentos mais importantes da viagem ao Campo Base da maior montanha do mundo foi aprender que, a cada vez que olhasse para cima, eu deveria olhar cinco vezes para baixo. Quem pratica montanhismo sabe do que estou falando. Quando você está no pé da montanha e olha a trilha que vai subir, dá um frio na barriga. Você vê as pessoas lá em cima, como formiguinhas, e sabe que para chegar lá terá que fazer uma escalada de oito, nove horas. Então ataca a montanha. Um passinho aqui... outro ali... num processo penoso. Quando olha para cima, percebe que seu objetivo ainda está muito longe, mas ao olhar para baixo a mágica acontece. Você descobre que o campo base de onde saiu está láááááá embaixo. Cada olhada para baixo dá a certeza de que você progrediu, gerando energia para subir mais. Isso é automotivação: a certeza do progresso nos empurra para cima.
 
O que aqueles jovens COs chamaram de “Monumento à Incompetência” é na verdade a lembrança dos pioneiros que, com a carga às costas, sem computadores, celulares e internet, assumiram o risco de sair lá do “campo base” para desenvolver o negócio que eles hoje dirigem. Avaliar o passado pelas lentes do presente e chamar de “incompetência” o esforço das pessoas que passaram pelos anos de hiperinflação, incertezas, regime fechado, tecnologias rudimentares, abertura econômica e dólar alto é como observar hoje as roupas de George Mallory e achar que ele era um incompetente. Não era. Usou o que havia de melhor na época e por pouco não atingiu seus objetivos.
 
Parabenizei os COs pelo sucesso e deixei com eles uma recomendação:
- Rebatizem os “Monumentos à Incompetência” como “Memoriais aos Heróis do Passado”. Foram eles que trouxeram vocês até aqui em cima.
 
Luciano Pires
Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista.
 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sustentabilidade


Exemplo a ser seguido em todas famílias. Parabéns aos autores.

Crime Organizado e Terrorismo




Aproxima-se os jogos mundiais (2014) e os olímpicos (2016) no Brasil. Não há dúvida de que o terreno para ações criminosas será maior e que a globalização e o interesse mundial por estes eventos propiciam um cenário para que ações terroristas sejam desencadeadas. Daí o necessário conhecimento e estudo das organizações, tarefa que, obrigatoriamente, deve ser desencadeada pelas instituições que compõem o sistema de segurança pública.
O questionamento que o estudioso do assunto se depara ao iniciar sua caminhada acadêmica neste campo é o seguinte: podemos entender que a definição de crime organizado abrange as organizações terroristas como, por exemplo, a Al Qaeda? A resposta, que pode causar certo espanto ao leitor comum, é positiva, ou seja, uma organização terrorista engloba a conceituação de criminalidade organizada.
Estudioso da temática, o professor Walter Fanganiello Maierovich, em obra recente que recomendo a leitura (Novas tendências da criminalidade transnacional mafiosa, Editora UNESP, 2010, p. 12), explica esta possibilidade e inicia uma diferenciação singular, que merece ser de conhecimento de todos aqueles que militam nas atividades de preservação da ordem pública. Segue sua definição:
A expressão crime organizado deve ser usada como gênero e comporta divisão da existência de associações deliquenciais comuns e especiais. Essas últimas distinguem-se por possuir matrizes diversas, em organizações de modelo mafioso. (grifo nosso)
O meu predileto professor ainda explica que as organizações de modelo mafioso não se confundem com associações comuns de criminosos, conhecidas aqui no Brasil, por força de tipificação penal, como quadrilhas ou bandos. As organizações mafiosas, definidas por Giuliano Vassalli (apud MAIEROVICH, ob cit., p. 14), revestem-se “num sistema extrainstitucional de controle social e que se sobrepõe à autoridade constituída” e requerem:
- Controle de território;
- Controle social;
- Forte poder de corromper pessoas e autoridades públicas;
- Influência eleitoral;
- Cultura da omertã (lei do silêncio);
- Obediência hierárquica de seus membros;
- Existência de um “código de ética” (se isto é possível!);
- Compromisso de morte (sangue para entrar e sair da organização);
- Ideologia do lucro.
O terrorismo, por sua vez, conforme artigo da Resolução da Organização das Nações Unidas de 19 de janeiro de 1998, intitulada de Convenção Internacional para Supressão de Uso de Explosivos, caracteriza-se pelo ato “daquele que transporta, faz explodir ou detonar explosivo ou outros elementos letais em local público, instalação pública e em sistema de transporte público”. Evidente que o objetivo do ato terrorismo é provocar “mortes, destruição e danos materiais”. Ainda nesta seara, o professor Alexander Schmid (apud MAIEROVICH, ob cit., p. 15) aponta, com relevância, que o “alvo direto da violência terrorista não é o alvo principal”. O alvo direto são as vítimas de cada atentado, mas o alvo principal é o estado político, cujo atentado “comunica uma mensagem que intimida, difusamente, e faz propaganda” (MAIEROVICH, ob cit., p.15). O terrorismo quer a submissão da sociedade.

Não resta, portanto, dúvida de que o terrorismo se encaixa no amplo conceito de crime organizado, vez que esta é a tendência dos estudos acadêmicos. Ainda restam outras questões, como saber se o primeiro comando da capital (PCC) é um grupo terrorista? Há muito a escrever...

Carlos Tramontina e a Globo

Fonte: luannacota.blogspot.com


Nunca foi uma pessoa que apoiava o discurso referente a “burguesia dominante”. Tenho consciência de que o estudo pode fazer a diferença na vida (acredito realmente nisto). Entretanto continuo lendo mensagens que, repetidamente, criticam o “domínio da burguesia em nossa sociedade” (me lembro, neste caso, das aulas de sociologia do Prof. Baptistini quando fazia menção a obra Casagrande e Senzala), fato este que me tem levado a fazer uma reflexão sobre esta temática, deixando-me mais receptivo a este tipo de informação (o que, para mim, é bom. Deixo o pré-conceito de lado – exercício de grande dificuldade para nós professores). Desta feita, hoje (25jul11) ao assistir o SP TV, uma chamada atraiu minha curiosidade, uma vez que um receptador de carros roubados havia sido preso e fugido do compartimento de presos da viatura da Polícia Militar.

O âncora Tramontina, de forma irônica, narrou o evento dizendo que o receptador de carros roubados havia sido preso pela polícia e colocado no “porta-malas” da viatura policial e se aproveitando de um dispositivo que permite a abertura pelo lado de dentro, logrou êxito em abrir o compartimento e fugir algemado.

É, de fato, uma situação desagradável, mas não inusitada. Fugir algemado já ocorreu outras vezes, em várias polícias no mundo. Entretanto, foi inusitado o comentário despropositado do jornalista (profissão que sequer precisa de diploma), ao dizer, rindo ironicamente, que somente o policial não “sabia da fechadura anti-sequestro” do veículo. Desagradável sim, pois ele é formador de opinião. Indicou, rindo de forma jocosa, esse equívoco. Pior ainda, com certeza, várias outras pessoas (criminosas ou não) não sabiam da existência desta fechadura, fato que poderia salvar-lhe a vida. Agora todos sabem. Irresponsabilidade global (sem trocadilho!). Mais uma vez me vejo defronte a burguesia dominante!

Da mesma forma, Tramontina, o detido (e não preso! Isto requer outras formalidades) não foi colocado no porta-malas da viatura, mas no compartimento de presos. Afinal, “o mala” é o jornalista e não o criminoso.